5 COISAS QUE NÃO ME CONTARAM QUANDO COMECEI NA PSICOLOGIA DO ESPORTE

Atualizado: há 5 dias

Oi pessoal, tudo bem com vocês? Ricardo Picoli escrevendo aqui.


Estava eu trocando uma ideia com o Yghor Gomes sobre o nosso início na Psicologia do Esporte, tudo o que passamos, o que erramos, quem eram nossas referências, as cópias de site que fizemos (qualquer dia eu conto num episódio do NucleoSCORECast a história do Yghor copiando nosso site...rs) e resolvi compartilhar com vocês algumas coisas que lembramos e que eu gostaria que tivessem me contado antes de aventurar nessa área que tanto amo. Segue a lista aí:


1. Dificuldade de inserção no “mercado” esportivo


O esporte, principalmente no alto rendimento, é E-X-T-R-E-M-A-M-E-N-T-E sedutor. Da mesma forma que muitas vezes olhamos alguma competição e nos iludimos achando que determinado movimento é fácil, para trabalhar no esporte não basta simplesmente bater à porta de um centro de treinamento e começar a ganhar um salário (até porque já tem muita gente boa trabalhando em muitas equipes de maior expressão nacional e em diversas modalidades.


É necessário ampliar nossa visão sobre os diversos campos de atuação possíveis e, a partir daí, ir construindo sua reputação, viver e ter experiências de atuação no esporte e também construindo networking.


2. Pouca gente sabe do que se trata


Esse tópico é anedótico: estava eu em Portugal no final de 2018 fazendo parte do meu doutorado na Universidade do Minho e, num belo dia ao regressar para minha casa parei em uma padaria (afinal, Portugal…).


Dentro do estabelecimento, depois de fazer meu pedido, percebi que duas pessoas à minha frente estavam falando com sotaque brasileiro sobre a negociação de um jogador. Me aproximei (com minha cara-de-pau), ressaltando minha “brasileirice” e perguntei do que se tratava.


Eles responderam dizendo que eram agentes/empresários e que o jogador estava querendo “melar o negócio” por “medo” de sair do Brasil e ir para Portugal. Foi a deixa para me apresentar como psicólogo do esporte e deixar meu contato, dizendo que poderia até atendê-lo online.


Logo após essa fala, a senhora que estava nos servindo nos disse assim: “PSICOLOGIA DO ESPORTE?!?! JÁ EXISTE ISSO TAMBÉM? VALHA-ME DEUS! HAHAHA (leia isso com um sotaque carregado do norte de Portugal e uma fala bastante alta).


Pois é. Se fossem somente as “pessoas normais” que não conhecem nosso trabalho a gente resolvia mais fácil. Muita gente que toma decisão no esporte, como também outros profissionais deste contexto, ainda pensam que nossa atuação sistemática e com base científica é supérflua ou a equivalem a uma mera palestra motivacional (geralmente quando a coisas não estão dando certo).


Criar reputação nesse meio não é fácil: foram muitos ‘nãos’ até chegar um ‘sim’. Mas, com algum esforço para explicar a importância do nosso trabalho - e um valor digno pelo serviço e que cabia no orçamento de quem contratava -, oportunidades surgiam.

3. Quando tinham interesse e me contratavam, o que eu deveria fazer?


Infelizmente a maior parte dos cursos de graduação em Psicologia no Brasil não tem uma disciplina seja obrigatória ou optativa/eletiva dedicada ao estudo da Psicologia do Esporte.


Os cursos de Educação Física geralmente têm, mas há poucos docentes especialistas em Psicologia do esporte propriamente, abordando processos básicos de Psicologia (ansiedade, atenção, emoções, motivação, percepção…) e aproximando-os da prática do profissional da educação física.


Não há também muitos cursos de pós-graduação lato-sensu (especialização, por exemplo), assim como também não há uma pós-graduação strictu-sensu (mestrado e doutorado) específica de Psicologia do Esporte no Brasil.


Desse jeito, o que eu ia fazer depois de passar pela primeira barreira de convencer alguém a me contratar? Naquela época (tá bom, não faz tanto tempo assim) a maior parte dos materiais acessíveis eram de uma realidade descontextualizada da nossa.


Aliada à falta de uma formação específica, definir o que observar, como priorizar demandas, os momentos de intervenção, etc. dificultavam muito o trabalho, bem como aumentavam - e muito - a minha angústia.

4. O trabalho é feito em horários não convencionais


Nós que somos apaixonados por esporte e lazer contamos os dias, minutos e segundos para ir pedalar, caminhar, andar de bike, jogar bola ou assistir às competições nas diferentes telas depois de um dia da semana cansativo ou nos finais de semana.


Acontece que quando se trabalha nesse meio, é você que tem de estar ali ou pelo menos disponível nos horários em que nos acostumamos a nos divertir ao praticar ou ver.


Uma das primeiras oportunidades que tive de trabalhar no esporte foi em uma equipe de futebol americano no Brasil que, mesmo sendo de competição e rendimento, era amadora (no sentido de não-profissional). Eram três dias de treinos na semana: Sábado e domingo das 9h às 11h com a base ou com o feminino e das 14h às 18h com a equipe masculina principal e na quarta-feira a partir das 22h, indo até 1h da quinta-feira.


O importante é destacar que após o treino de quarta-feira, a comissão técnica se reunia para planejamento. Então, na quarta-feira o horário de trabalho era das 22h até mais ou menos às 4h de quinta-feira.


E os jogos? Os jogos “tomavam” o lugar de um dos treinos de sábado ou domingo, sendo que dependendo do local e horário do jogo, a viagem ampliava esse tempo.


Muitas vezes, para jogar às 10h da manhã em cidades a mais de 200km da nossa, a preparação da viagem começava às 3h ou 4h da manhã e o retorno para casa era lá pelas 18h. Como diz o Victor Cavallari: OSSO!


Da mesma forma que os atletas abdicam de momentos aos finais de semana ou de lazer com família e amigos, nós também acabamos por ter de fazer isso ao trabalhar no esporte. Acontece muito também de não irmos até o local da competição, mas acabamos por ficar “de plantão” caso tenha algo para ajudar à distância.

5. As gírias e outros termos específicos não estão nos livros


.. aí, quando eu tava perto da base, eu tiltei
ultrapassei faltando 2k e só deixei rodar

Quando alguém que você está acompanhando te fala que tiltou, você pensa em quê? Talvez, se você sabe um pouco de como era a vida nos anos 1970 e 1980 nas casas de fliperama ou se você jogou Pinball Space Cadet no Windows 98’ na década de 1990 você tenha uma leve noção.


E quando fala pra você que depois de 2k ele deixou rodar? 2k é R$ 2.000,00? Rodar é dar cavalinho de pau, fazer ciranda...?


Confesso que nas horas que quando eu ouvi esses termos eu nada entendi. Achei muito inusitado, mesmo.


De modo geral, cada grupo tem suas piadas internas e gírias que só quem vive aquele contexto específico sabe do que se trata. É um fenômeno natural de grupos humanos. Porém, para trabalhar no esporte e entender os processos por detrás das ações, é essencial nos apropriarmos dessa “linguagem”.


No caso da primeira frase, tiltar é um termo bastante utilizado no mundo dos e-sports e significa que o player respondeu mal à situação, podendo até parar, travar. O segundo exemplo vem do atletismo e 2k é mais óbvio do que parece: 2km (dois quilômetros). Rodar significa deixar fluir, como se as pernas estivessem rodando mesmo, quase que automaticamente.


Nós enquanto psicólogos do esporte devemos nos perguntar os porquês dessas ocorrências, em quais contextos ocorrem e quais as consequências imediatas.


Eu espero que você que esteja iniciando nessa área de atuação incrível possa aprender um pouquinho com essas minhas experiências e ver como isso se dá no seu dia-a-dia. Se você já é mais experiente, conta aqui pra gente alguma experiência lá do seu início ou mesmo algum termo inusitado que você ouviu também =)


#psicologiadoesporte

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